terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A ave que caiu do ninho





Eis-me aqui. Esta espécie de ave esguia
De um tom pálido e manchado
Que em cria caiu do ninho
E tristemente esqueceu seu fado.

Vê! Olha-me a planar o céu!
Assiste à leveza do meu movimento!
Sem olhar á nostalgia que denoto
Quando teimoso me tomba o vento.

E quando o Sol ao pôr-se esmorecer,
Ver-me-ás no horizonte a fenecer
Lembrando-me enfim do meu fado esquecido.


R.V.,16/05/2011

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O Fóssil



  
  Deixo-me absorver por este momento de desilusão na esperança, na crença aliás, de que ele passará, como tantos outros. Por enquanto, tento manter-me aqui, imóvel. Impactada por esta realidade cortante.

  Esperava mais do mundo. Esperava mais da minha sorte e das pessoas que a fazem. Esperava não ter de lutar pelo que os outros dão por garantido, e ver-me falhar. Esperava ajuda, esperava apoio, sonhos realizáveis.

  Com certeza, tudo tem mais valor na minha vida, pois que tudo conquisto sozinha, a ferros. E gosto francamente do gostinho "fui capaz". Mas na hora em que a força perde a força e lutar se resume a cansaço, eu queria ombros. Queria palavras, incentivos...ou apenas um simpático "tudo se resolve". 

  O meu instinto de sobrevivência levou-me a um patamar elevado, em que a dor rapidamente se transforma em lição e a conquista mais simples almeja a seguinte. Sou no fundo uma espécie de estranho fóssil que a vida se esqueceu de proteger e que ao sabor das condições envolventes vai alterando o seu aspecto, mantendo-se discretamente no meio originário. Até que o vento mais rebelde me denuncie.


R.V.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

"As mães têm sempre razão"

  Cresci a ouvir dizer que "as mães têm sempre razão". Lamento, não é verdade. 

  As mães não têm sempre razão. As mães são mulheres. E as mulheres enganam-se. E também magoam, também se distraem, também se iludem. Sim, é uma chatice, mas as mães são só seres humanos. E ao contrário do que ouço dizer também, não creio que se tornem melhores seres humanos depois de serem mães, excepto um ou outro caso raro.

  Eu não sou mãe. Mas sou filha. E também sobrinha e neta e amiga. Conheço muitas mães e vejo-as apenas e só como seres humanos imperfeitos que todos somos, dotados de qualidades e defeitos, moldados à medida dos nossos desejos e anseios. Não reconheço às mães nenhum super-poder excepto, repito, um ou outro caso raro.

  Portanto, o meu conselho de filha com vinte e cinco anos de experiência é o seguinte: não cobrem às vossas mães que tenham sempre razão, não as recriminem quando estas se enganarem. Porque elas vão enganar-se e vão muitas vezes enganar-vos, crendo contudo que vos conduzem pelo melhor caminho. 



R.V.

domingo, 23 de novembro de 2014

De novo criança




Certa vez, quis fazer-me de novo criança!
E correr arrebatada pelo areal macio
Em busca do búzio eleito, beijar
A face da minha mãe e adormecer ao seu peito.

Quis fazer-me de novo criança!
E trepar as enormes cerejeiras em flor
Sonhar com príncipes, temer monstros, viver
Sem procurar o sentido do efémero amor.

Quis fazer-me de novo criança!
Mas o tempo que é carrasco não deixou.
E até hoje aguardo pela sua volta, sonhando
Que me traga a inocência que levou!



17/04/2011

O Regresso

  Tinha catorze anos quando criei o meu primeiro blogue. Na verdade, não era mais do que um diário que eu alimentava ao ritmo dos meus dissabores juvenis, quais catástrofes gregas. Em prosa ou poesia, o meu género favorito desde sempre, tudo tinha grandes pitadas de drama! Mas um drama convicto, como o verdadeiro o deve ser. Na realidade, penso que escrevia mais e melhor quando estava deprimida. Um grande desgosto de amor acabava sempre num belo soneto, grandioso e sofrido até ao último verso!

  Em 2008, a minha vida sofreu um recomeço. E saber que tinha aquele "diário" apenas à distância de um clique, carregado de textos incómodos, de relatos amorosos que pertenciam ao passado, de desejos profundos que nada mais eram do que pó...deixou de fazer sentido. Eliminei o blogue, embora tenha conservado em papel (o meu fiel amigo!) cada linha que lá coloquei.

  Continuei a escrever, essencialmente para mim. Porque sempre considerei a escrita uma forma de libertação, um meio dizer todas as verdades sem medo, vergonha ou outras hesitações. A determinada altura comecei a colaborar semanalmente com um site de crónicas, mas a obrigatoriedade de escrever depressa se revelou incómoda e desisti.

  Hoje foi o dia em que resolvi voltar à escrita. Há sensivelmente um ano que não o faço e isso tem de mudar. Tenho demasiado a dizer e outro tanto a descobrir.



R.V.